As mulheres trabalhadoras rurais têm participado ativamente da construção de modelos sustentáveis de agricultura. Apesar disso, ainda sofrem com a invisibilidade de seu trabalho diário. Maria Emília Pacheco, assessora da Fase, organização parceira da ActionAid no Pará, fala sobre as conquistas e desafios para as mulheres que vivem no campo.
Qual é o papel da mulher trabalhadora rural no desenvolvimento de um modelo agrícola sustentável?
MP - As mulheres têm um papel histórico em relação às sementes. Elas são mais do que guardiãs das sementes: conservam, transformam, desenvolvem práticas de acordo com conhecimentos tradicionais que passam de geração em geração. Podemos dizer que elas são melhoristas também. Há uma lógica que associa várias razões de porque conservar e reproduzir uma semente. Os homens tendem a ver o valor comercial, o que a semente representa em termos de produtividade. As mulheres já consideram outros fatores e usos como o cozimento, a importância no preparo de alguns alimentos.
E que tipo de conservação e melhorias elas conseguem fazer?
MP - No Mato Grosso, vi um teste de sementes de café conservadas pelas mulheres para o auto-consumo. O objetivo era observar a capacidade de produção do café para, em seguida, plantar em maior quantidade associado a outros produtos. Esse cultivo no entorno da casa evita o desaparecimento da semente. Essa percepção dos usos sociais da biodiversidade, que é uma percepção em que o mercado deixa de ser o centro organizador, traz ensinamentos para pensar as propostas de políticas para o campo e também sobre o papel das mulheres.
Como as propostas de políticas públicas para a agricultura familiar tem considerado o papel das mulheres?
MP - Costumamos dizer que as políticas são cegas de gênero, não há percepção sobre o papel econômico da mulher e o que representa essa interação de auto-consumo e produção. A produção artesanal, a transformação dos produtos feitos artesanalmente, sejam frutos, fibras, o extrativismo, a produção agrícola e a produção de pequenos animais integram o sistema. Só com essa visão mais integrada é possível tirar da invisibilidade o papel das mulheres. Porém, é preciso mais para resolver o lugar subordinado que, em geral, as mulheres tem no sistema.
Qual é o caminho para que elas conquistem cada vez mais o reconhecimento de seu papel como sujeitos econômicos?
MP - É preciso que os trabalhos educativos reconheçam a importância da mulher, dirijam-se às mulheres e que elas participem ativamente das atividades de intercâmbio de experiências e educativas. Não há autonomia econômica na família sem distinguir quem participa da família.
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