Há consenso de que a ação humana é responsável pelas alterações no clima global. Como conseqüência, haverá o aumento do nível dos oceanos, a modificação no padrão das correntes marítimas e dos ventos e a maior freqüência de secas, enchentes e furacões.
Para Celso Marcatto, coordenador do Programa de Segurança Alimentar da ActionAid, as pessoas mais pobres serão as mais afetadas.
Quais são as conseqüências das mudanças climáticas para os países mais pobres?
CM - As alterações climáticas podem comprometer os poucos avanços obtidos nas últimas décadas na luta contra a fome e a desigualdade. Prevê-se a ampliação dos processos de desertificação; perdas freqüentes de safra; fome e migração provocadas pela escassez de água e de alimentos. São as regiões em desenvolvimento que vão sofrer maior impacto, pois já são freqüentemente afetadas pela alta variabilidade das condições de clima. Além disso, são dependentes da agricultura, um dos setores econômicos mais vulnerável às mudanças climáticas, e vão sofrer de forma mais intensa com a redução drástica das atividades produtivas.
O que é possível fazer para minimizar esse impacto?
CM - As soluções são possíveis já, e vão desde o comprometimento de governos, de grandes indústrias e de todos os cidadãos com a redução de emissão de gases responsáveis pelo aumento da temperatura global, até elaborar políticas públicas que, de fato, ampliem a capacidade das populações mais pobres de se adaptarem às mudanças que virão. Também é fundamental fortalecer alternativas de produção agrícola mais resistentes e sustentáveis.
Há exemplos dessas alternativas em curso?
CM - No Brasil, a ActionAid apóia muitas iniciativas de agricultores familiares denominadas agroecológicas que reduzem a dependência de produtos externos a partir do uso de métodos adaptados às condições locais, como secas, inundações, irregularidade das chuvas, baixa fertilidade dos solos, etc. No Nordeste, a construção de cisternas de placa e as barragens subterrâneas são exemplos de ações de conservação da água que viabilizam a convivência do agricultor com o clima da região. Outro exemplo são os bancos de sementes comunitários da Paraíba que incentivam o uso das variedades locais adaptadas aos desafios climáticos da região, uma forma de promover a conservação da diversidade de espécies. Na Zona da Mata de Minas Gerais, agricultores familiares incorporam árvores em suas lavouras, o que favorece a adubação do solo, mantém sua umidade, protege da erosão, além de fornecer lenha e madeira para as famílias. Estas experiências mostram que é possível aliar produtividade, com segurança alimentar e respeito ao meio ambiente.
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