e-boletim nº 08 - Setembro de 2008   
  De panelas vazias
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A alta dos preços de alimentos atingiu duramente as pessoas em todo o mundo. No Brasil, o custo dos itens da cesta básica subiu 31% em 2008. Os produtos mais afetados pela inflação foram o óleo de soja, o arroz, o feijão e a farinha de trigo.

Para a faixa mais pobre da população, a pressão da inflação é ainda maior. Famílias que ganham até um salário mínimo (R$400) costumam comprometer cerca de 40% do orçamento doméstico com alimentação.

A lista de compras de mercado de Elisabeth da Silva (foto ao lado, à esquerda), 37 anos, está a cada dia menor. Ela e sua família que vive em São João de Meriti, no Rio de Janeiro.

“Como não dá para comprar carne, prefiro comprar pé e pescoço de frango. Custa R$1,90 o quilo. Faço com chuchu e jiló para a família almoçar e jantar”, conta Elisabeth
.

Aperto de cinto nas periferias urbanas

O preço dos alimentos também sofre influência da alta dos combustíveis, o que faz com que a dificuldade em comprar seja maior entre os moradores das periferias urbanas.

Para Cátia dos Santos (foto acima, à direita), 32 anos, encher a panela todos os dias é um desafio. Ela e os quatro filhos sobrevivem com os R$ 112 que recebe do programa Bolsa Família e complementa com a venda de lixo reciclável que coleta pelo bairro. Para cada quilo de garrafas de plástico ela recebe 70 centavos.

“A saída é usar o usado dos outros. O pão que um não quer mais, óleo que já foi usado. É ruim para a saúde, mas pior é não comer nada”, diz.

Em Ibura, na periferia de Recife, em Pernambuco, Severina Pereira, 56 anos, já estava acostumada ao malabarismo para fazer com que os R$ 415 da aposentadoria do marido fossem suficientes para manter o casal e os dois netos por um mês. Ultimamente, não houve jeito.

“A gente pagava as contas todas e com o que sobrava a gente fazia a feira e ainda sobrava para comprar uma carne, verduras e frutas. Agora só sobra R$160 para passar o mês. Quando chega a segunda semana já não tem mais dinheiro e o que deu para comprar já acabou”, conta. Ela é uma das lideranças que trabalha junto à ETAPAS, organização parceira da ActionAid na comunidade, na reivindicação do direito à infra-estrutura urbana.

Estratégias de sobrevivência

Para que não falte comida no prato, Cátia, Elisabeth e Severina procuram soluções que vão desde a diminuição do consumo até a substituição de alguns alimentos. Na Casa da Cultura da Baixada Fluminense, organização parceira na comunidade, as crianças das duas famílias freqüentam as atividades sócio-educativas e ainda aprendem a se alimentar de forma mais nutritiva por meio do projeto Alimentação é Cultura.

Para Severina, a solução é deixar os netos se alimentarem na escola e economizar onde é possível. “A gente vai vivendo uma vida de racionamento permanente. A vida está ficando muito ruim. Há 3 meses já não uso o ventilador nem o filtro elétrico de água para poupar energia”, conta.

“O governo precisa ampliar as políticas sociais, os instrumentos de controle de preços e de estoques de alimentos para evitar que esses aumentos sejam sentidos, principalmente, na mesa das pessoas mais pobres”, avalia Celso Marcatto, coordenador do Programa de Segurança Alimentar da ActionAid.

Aumento de preços em 2008*

Arroz 38,21%
Feijão 57,73%
Macarrão 16,11%
Óleo de soja 26,45%

*dados do IBGE publicados no Jornal O Estado de São Paulo, agosto 2008

 
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