e-boletim nº 08 - Setembro de 2008   
Fome dá lucro
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O noticiário em todo mundo apontou a recente alta generalizada no preços dos alimentos. Atualmente, já são mais de 950 milhões de pessoas que passam fome no mundo, segundo o Programa de Alimentos das Nações Unidas.

Jorge Romano, da ActionAid, ressalta o papel da especulação financeira na atual crise mundial de alimentos.

Qual é a relação entre a atual crise de alimentos e a especulação do mercado financeiro?
JR - A crise mundial de alimentos é resultado de um conjunto de causas, mas para explicar o aumento exponencial dos preços dos alimentos é preciso dar mais atenção à especulação. Os aumentos especulativos – como também os do petróleo – seriam fruto dos fortes investimentos do capital financeiro (bancos, fundos de pensões, fundos de alto risco e rendimento) nos mercados internacionais de produtos agrícolas. Estudos da ActionAid apontam que a especulação nos mercados futuros movimentou US$ 1 bilhão diários entre fevereiro e março deste ano, volatilizando os preços e afastando-os da realidade da produção. Os preços atuais escondem muito mais que o jogo da oferta e da demanda. O mercado experimentou, no ano passado, os maiores estoques de soja da história e, mesmo assim, os preços explodiram. O que existe é uma financeirização do mercado. Os riscos aumentaram, porém não desagradaram os participantes dessa ciranda especulativa. Para os produtores, significou preços maiores. Para os investidores, a possibilidade de incrementar lucros. Para as bolsas, uma liquidez mais atraente. Para os pobres, fome.

Por que quase não se fala da influência da especulação financeira sobre o preço dos alimentos?
JR - O que há de novo na fome do século XXI diz respeito não só às causas, mas principalmente ao modo como são ocultadas. O debate sobre as causas do aumento do preço dos alimentos não é neutro. A diluição da responsabilidade da especulação é um claro e perigoso exemplo. A fome hoje é a nova grande fonte de lucros do capital financeiro.

De que maneira é possível controlar a ganância de quem lucra com a fome?
JR - A ActionAid aposta em algumas medidas a serem apresentadas, debatidas e adotadas na Conferência das Nações Unidas, que ocorre em setembro deste ano. Elas visam a difícil tarefa de inibir a especulação financeira que aflige a produção de alimentos: estoques regulatórios maiores, limite para as posições de compra e venda, aumento da margem de depósitos requeridos e taxação de transações especulativas. As dificuldades são enormes, mas é ainda maior a luta pelo direito humano de acesso aos alimentos, um direito fundamental à vida.

 
ActionAid sob nova coordenação
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A partir de setembro de 2008, Rosana Heringer é a nova Coordenadora Executiva da ActionAid no Brasil.

Rosana é Doutora em Sociologia, tem longa trajetória na área de direitos humanos. Desde 2004, até o momento, atuava como na ActionAid como Coordenadora do Programa de Direitos das Mulheres e Afrodescendentes, e da iniciativa de Produção de Conhecimento.

 
A crise de alimentos, o FMI, o Banco Mundial e a OMC
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O FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) tem sua parcela de responsabilidade na crise mundial de alimentos. Este foi o ponto de vista que Magnólia Said, diretora do Esplar, organização parceira da ActionAid no Ceará, apresentou durante o seminário A Crise dos Alimentos no contexto das Crises Ambientais e Energéticas. O evento contou com a participação de pesquisadores, acadêmicos e movimentos sociais para discutir as causas e as soluções da crise na Universidade Federal do Ceará, no último 22 de agosto.

“Através de seus contratos de empréstimos e acordos de livre comércio, essas organizações levaram ao desmantelamento de vários instrumentos que os países em desenvolvimento e os países pobres haviam criado para proteger sua produção agrícola local”, explica.

Para ela, as condições impostas por esses organismos levaram os países em desenvolvimento a abrir suas terras ao agronegócio global, aos especuladores e às exportações de alimentos subsidiados dos países ricos.

“O caso do Haiti é exemplar. Há algumas décadas era auto-suficiente em arroz. Daí, vieram o FMI, o Banco Mundial e o BID forçando o país a liberalizar o seu mercado, para facilitar a entrada do arroz barato dos EUA, apoiado por subsídios, acabando com a produção local. Resultado: o preço do arroz subiu 50% em relação ao ano passado e a população não está podendo arcar com esse custo”, conta.

 
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