O espetáculo Criança não trabalha, dá trabalho! vai virar um DVD de 35 minutos com o espetáculo de mesmo nome encenado em 2007, entrevistas e um making of dos bastidores da produção. O vídeo é um dos resultados da atividade do Circo Social da Casa da Cultura da Baixada, organização parceira da ActionAid em São João de Meriti, no Rio de Janeiro.
A peça foi montada após quatro anos utilizando a linguagem circense como instrumento de arte-educação para desenvolver aspectos como criação, expressão e a cidadania entre crianças e adolescentes. A estréia aconteceu em outubro no Teatro Municipal Raul Cortez, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e esteve em cartaz durante um mês na sede da organização.
“É um panorama deste trabalho sócio-educativo, que mostra desde as oficinas até a concepção do espetáculo em si”, conta Diestéfano Sant’Anna, coordenador da Casa da Cultura.
A peça é encenada por 20 jovens e crianças da Trupe de Brinquedos, uma companhia teatral especializada nas artes circenses, formada na própria Casa da Cultura. Há quatro anos, as aulas do Circo Social atendem cerca de 150 alunos por semestre. As aulas acontecem de manhã e de tarde, complementando os turnos escolares.
O DVD ficará pronto no começo de abril e será distribuído entre organizações parceiras e escolas da rede pública do município.
Criança não trabalha, dá trabalho!
O espetáculo, que trata do tema trabalho infantil, é fruto da união de educadores e alunos e partiu da idéia de reunir técnicas circenses com temas relacionados aos direitos das crianças. A discussão de textos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Estatuto da Criança e do Adolescente se complementou com uma pesquisa sobre o assunto na internet, feita pelas próprias crianças durante as aulas de informática. A música de Paulo Tatit e Arnaldo Antunes, Criança não trabalha, inspirou o nome da peça.
O enredo conta a história de duas crianças que vivem em um lugar mágico, o País do Tindolelelalá, habitado somente por crianças de todas as cores. Surgem quatro guardiões gigantes (atores em pernas de pau que representam a família, a escola, a sociedade e uma bruxa) que decidem cuidar delas para protegê-las dos riscos que envolviam suas brincadeiras. Com a intervenção dos “adultos”, as crianças perdem seu poder de imaginação e acabam sendo oprimidas por uma realidade estranha ao universo infantil.
“Mais do que mostrar técnicas circenses, o principal objetivo do espetáculo é mostrar a importância da brincadeira e a relação com as outras crianças para o pleno desenvolvimento de cada uma delas, para que cresçam como cidadãs, conscientes de seus direitos”, diz William Botelho, coordenador da atividade e formado pela Escola Nacional de Circo.
O Circo Social é uma das atividades da Casa da Cultura, organização que recebe apoio institucional da ActionAid desde 1999. A Lei de Incentivo à Cultura, por meio do Conselho de Defesa dos Direitos da Infância e do Adolescente, contribui para que este projeto possível.
Trabalho Infantil não é brincadeira
Trocar a brincadeira por responsabilidades é uma realidade para muitas crianças. Débora Miranda(na foto, à esquerda), 10 anos, ao lado de Aline Silva, 9 anos, duas atrizes no espetáculo, não perdem as aulas da escola nem do circo, que freqüentam há dois anos, mas quando não estão na Casa da Cultura é comum assumirem algumas tarefas domésticas.
“Tenho quatro irmãos mais velhos, mas sou eu que arrumo a casa, lavo banheiro e cozinha”, conta Débora. A rotina da amiga não é muito diferente. “Às vezes lavo a louça e arrumo a sala. Quando minha mãe não está em casa, eu tenho que esquentar comida para minha irmã”, conta.
“A criança que não aprende a cooperar na família, não irá aprender a cooperar na sociedade nem a ter responsabilidades. Mas é preciso que as tarefas e responsabilidades sejam adequadas à idade”, avalia Sant’Anna.
As oficinas de circo e o espetáculo serviram para provocar um amplo debate sobre o tema junto às famílias das crianças que freqüentam a Casa. ”A cultura também tem o papel de provocar uma transformação. A partir da experiências dos filhos, os pais passam a refletir sobre assuntos como trabalho infantil e, até mesmo, a debater o que são direitos e deveres”, conta.
A lei brasileira não permite o trabalho de menores de 16 anos. O trabalho infantil se caracteriza quando a criança é impedida de freqüentar a escola e de se desenvolver por realizar atividades para terceiros, dentro ou fora ou do ambiente familiar, em troca de alguma coisa. No Brasil, cerca de 5 milhões de crianças de 5 a 17 anos são obrigadas a trabalhar. O combate a este problema é uma prioridade para o governo e um compromisso firmado internacionalmente.
“Quantificar a ocorrência de trabalho infantil é difícil, as informações oficiais não estão reunidas e estima-se que há muitos outros casos que sequer são notificados”, avalia Sant’Anna. Para que as autoridades tomem conhecimento de casos de trabalho infantil é preciso encaminhar uma denúncia ao Conselho Tutelar.
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